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O mosquito que virou emergência de saúde pública internacional

Gerente médica do Hospital São Francisco fala sobre o tema

07/03/2016

Dra. Silvia Fonseca, gerente médica do Hospital São Francisco 

Não apenas o Brasil, mas também outras nações estão em alerta contra o mosquito Aedes aegypti, vetor responsável pela transmissão dos vírus da dengue, chikungunya e zika. Este último, que começou a infectar seres humanos nos continentes africano e asiático em 1951, chegou, em 2015, a países como Brasil, Chile, Colômbia, El Salvador, Guatemala, México, Paraguai, Suriname e Venezuela. Pesquisas estão sendo realizadas no mundo inteiro a fim de conhecer mais esta doença, que está sendo relacionada à microcefalia.

Em fevereiro deste ano, um estudo feito em Liubliana, capital da Eslovênia, e publicado na revista científica americana The New England Journal Of Medicine, reforçou a tese da relação entre o vírus e a má formação do feto.

Uma mulher europeia que morava em Natal (RN) teve sintomas da zika, mas não fez o exame. De volta à Europa, com 32 semanas de gravidez, um ultrassom revelou que o bebê tinha a cabeça menor do que o normal e calcificações no cérebro. A pedido da mulher, e com aprovação de um comitê de ética da Eslovênia, a gravidez foi interrompida aos oito meses. A autópsia mostrou danos graves no cérebro e também na medula espinhal do feto. Uma análise microbiológica revelou que o vírus da zika estava no tecido do cérebro.

Pra excluir outras possíveis causas de microcefalia, os cientistas procuraram sinais de infecção por citomegalovírus, herpes, rubéola e até dos vírus que provocam dengue, febre amarela e chikungunya. Todos os exames deram negativo. A mulher e o parceiro também não tinham alterações genéticas que pudessem aumentar o risco de má formação do bebê.

A escola de medicina da universidade de Harvard, nos Estados Unidos, analisou o estudo. O pesquisador Eric Rubin disse que uma pesquisa apenas não é suficiente pra provar a ligação de uma coisa com outra. Mas essa é a melhor evidência que já surgiu: “estamos chegando perto”.

Mas se há uma relação, como se explica a situação da Colômbia, onde mais de 3.100 mulheres que pegaram o vírus não tiveram bebês com microcefalia? “Ainda precisamos descobrir muita coisa. Se há variações no vírus de uma região para outra, e se os bebês de mulheres infectadas que não apresentam sintomas também correm risco”, declarou. (Fonte: Jornal Nacional, da Rede Globo, edição de 11 de fevereiro de 2016)

Em 25 de janeiro deste ano, o Ministério da Saúde publicou um Protocolo de Atenção à Saúde e resposta à ocorrência de microcefalia relacionada à infecção pelo vírus da zika, que pode ser visualizado no link goo.gl/HLFzVH.

Mesmo com essa pesquisa, Dr. Beny Schmidt, chefe e fundador do Laboratório de Patologia Neuromuscular e professor adjunto de Patologia Cirúrgica da Unifesp – Universidade Federal de São Paulo (SP), mantém a opinião que sempre sustentou. “Até o momento, o vírus da zika não pode ser considerado etiológico para microcefalia. É preciso entender qual é o mecanismo que faz o vírus interagir com o sistema nervoso central para estabelecer causa e efeito de maneira acadêmica. Por exemplo, ele provoca inflamação do folheto embrionário (ectoderme)? É capaz de interagir com os genes do núcleo do hospedeiro? São necessários mais trabalhos científicos para se estabelecer essa ligação. Além disso, até agora, apenas foi relatada microcefalia associada à doença no Brasil”, declara.

Dr. Schmidt critica o fato de nenhum neuropediatra, neonatologista e, sobretudo, nenhum neuropatologista ter sido chamado inicialmente para falar sobre o assunto. “Com todo respeito aos especialistas em moléstias infecciosas, é preciso ter o mínimo de bom senso para ouvir os profissionais que realmente conhecem a patologia. Um dos principais e verdadeiros compromissos do governo com a sociedade brasileira seria o de aproveitar esse sensacionalismo e ensinar ao povo a importância de se evitar os casamentos consanguíneos, que, infelizmente, são absurdamente frequentes no Brasil e que são a real etiologia das más formações e doenças hereditárias no nosso país”, afirma.

Na prática

Este grave problema de saúde pública tem levado os hospitais a criarem estratégias para se adequarem ao aumento da demanda, afinal, a população de Aedes aegypti atinge seu pico entre os meses de março e abril.

Primeiramente, o mais importante é saber identificar qual desses vírus a pessoa adquiriu. A Dra. Andreia Maruzo Perejão, infectologista do Hospital e Maternidade São Cristóvão, de São Paulo (SP), explica que, muitas vezes, somente com a história clínica do paciente não é possível diferenciar essas doenças, porque seus sintomas são muito parecidos. “Algumas características são mais marcantes em algumas delas, como as dores articulares intensas na chikungunya, a conjuntivite na zika e chikungunya, e a febre mais baixa na zika, porém todas podem apresentar os sintomas. Assim, os exames laboratoriais e sorológicos são essências para a certeza no diagnóstico”, conta.

Embora todas sejam igualmente tratadas, com sintomáticos e suporte clínico, a importância no diagnóstico se dá, principalmente, para critérios epidemiológicos e para histórico do paciente, pois um antecedente de uma das doenças pode significar agravantes em quadros redicivantes futuros, além de levar a complicações em situações associadas, como gestação no caso de zika.

O Hospital de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT/HAA), de Goiânia (GO), recebe apenas situações graves e complicadas de dengue, chikungunya e zika. A instituição possui unidade de emergência com corpo clínico treinado e estrutura adequada, além dos insumos para esse atendimento. Na maior parte das ocorrências, são necessárias apenas hidratação vigorosa e observação dos sinais clínicos que indiquem piora do quadro. Outro setor relevante é a Agência Transfusional, que conta com hemocomponentes e hemoderivados.

“Por sermos especializados em doenças infectocontagiosas, temos infectologistas de plantão em todos os horários, o que facilita o reconhecimento e o diagnóstico dessas doenças. Para identificação dos vírus são feitos exames iniciais de hemograma e função hepática, seguidos dos exames sorológicos, para confirmação do resultado”, explica a diretora técnica, Dra. Letícia Aires, infectologista e pediatra.

O hospital já precisou ampliar o setor emergência e, desde 2014, possui 14 leitos no setor, além de um leito na área de reanimação. Conta ainda com 10 leitos de UTI adulto e cinco de UTI pediátrica: os principais nos casos de maior gravidade.

A maior dificuldade ao lidar com épocas de surtos dessas doenças, de acordo com a Dra. Letícia, é o excesso de pacientes que não têm quadro compatível com dengue, chikungunya e zika, mas são encaminhados à unidade. “Para resolver esse problema, é preciso fazer a contrarreferência e encaminhar principalmente aos serviços de hematologia, quando necessário”, expõe.

Outro hospital que divide sua experiência é o Dr. Miguel Soeiro (HMS), unidade própria da Unimed Sorocaba (SP), que implementou em 2015 um plano de contingência nesses casos. A instituição conta com uma sala especial, com diversos pontos de hidratação necessários para o atendimento e tratamento desses pacientes. “Neste ano, já estamos fazendo os testes rápidos de dengue. Os exames de suspeitas de zika e chikungunya são encaminhados à Vigilância Epidemiológica da cidade”, explicam Paulo Hungaro Neto, diretor vice-presidente da Unimed Sorocaba, e Mário Sérgio Moreno, diretor técnico do HMS.

Segundo eles, o plano de contingência adotado vai além das ações no hospital, envolvendo, nas clínicas e consultórios, os cooperados com disponibilidade de agenda para receber os pacientes que necessitam de acompanhamento médico. Com esta retaguarda, diminuiu substancialmente o fluxo no pronto-socorro, evitando retornos.

“Na prática, o primeiro atendimento continua sendo feito no pronto-socorro do hospital. Quando a pessoa é diagnosticada com dengue, recebe as orientações necessárias para que, depois de três dias ou a critério do médico, agende horário nos consultórios de um dos cooperados que aderiram à escala”, detalham.

As equipes médica e de enfermagem que atuam na Emergência do HMS foram capacitadas para o diagnóstico correto das doenças. Também foram distribuídos materiais impressos aos colaboradores e clientes, com orientações específicas.

No ano passado, a maior dificuldade que a instituição enfrentou foi absorver o abrupto aumento de, aproximadamente, 40% no número de pacientes atendidos no serviço de emergência. “Resolvemos esse problema com a readequação física do setor e, também, aumentando o quadro de técnicos de enfermagem e de laboratório, as equipes de acolhimento e os profissionais médicos específicos”, finalizam os diretores.

Já o Hospital São Francisco, de Ribeirão Preto (SP), tem grande experiência quando se fala em dengue. A instituição possui uma equipe multiprofissional, composta por médicos, enfermeiros, farmacêuticos, pessoal de laboratório e administradores, que mantêm um plano de ação para o fluxo de atendimento e participam constantemente de treinamentos e workshops de capacitação de acordo com os protocolos do Ministério da Saúde.

Além disso, para melhor atender ao aumento da demanda, contratou mais médicos, enfermeiros e profissionais administrativos. A estrutura recebeu modificações para acomodar exclusivamente os pacientes com casos suspeitos ou confirmados.

O número total de atendimentos no São Francisco teve um acréscimo de 30%, sendo que em meados de janeiro de 2016 os casos suspeitos já são 70% superiores ao mesmo período relativo a janeiro de 2011, ano da maior epidemia de dengue na cidade e de atendimentos no hospital.

Com o aumento, foram reforçados procedimentos que incluem a triagem por uma equipe de enfermeiros de todos os pacientes suspeitos. Se algum sinal indicar a presença do vírus, o paciente recebe uma pulseira adicional de cor laranja, sendo, em seguida, encaminhado para a sala de coleta de exames de sangue. Neste momento, já recebe uma garrafinha de água para iniciar a hidratação, que é o melhor tratamento conhecido para combater os efeitos da doença.

Após a coleta, os pacientes esperam o resultado do exame, que fica pronto em até uma hora, quando então é atendido por um médico que já está com o documento em mãos. “Caso ainda ocorra alguma dúvida, são realizados novos exames. Se for necessário, receberá hidratação endovenosa e uma carteirinha específica com retorno agendado para o dia seguinte ou para dias alternados, conforme a avaliação médica”, explica a gerente médica do hospital, Dra. Sílvia Fonseca.

Mais ações

Em janeiro, os planos de saúde passaram a ser obrigados a oferecer aos seus beneficiários 21 novos procedimentos, entre eles o teste rápido para dengue e o exame de diagnóstico de chikungunya. O diagnóstico do vírus da zika não entrou no novo rol da ANS porque quase nenhum laboratório privado brasileiro oferecia o procedimento quando as coberturas do novo rol foram definidas, em outubro de 2015.

O Ministério da Saúde distribuirá 500 mil testes para realizar o diagnóstico de PCR (biologia molecular) para o vírus da zika. Com isso, os laboratórios públicos ampliarão em 20 vezes a capacidade dos exames, passando de mil para 20 mil diagnósticos mensais.

O governo brasileiro firmou em fevereiro deste ano um acordo com a Universidade do Texas, nos Estados Unidos, para desenvolver vacina contra o vírus da zika. Com a união de esforços entre os dois países, ela poderá ficar pronta para aplicação em três anos. Desse prazo, a parte do desenvolvimento poderá ser encurtada de dois para um ano. Após isso, serão necessários mais dois anos para produção e comercialização do produto. A pesquisa será feita por cientistas brasileiros e norte-americanos do Instituto Evandro Chagas, localizado no Pará, e da Universidade do Texas Medical Branch.

A OMS – Organização Mundial da Saúde, que considera o avanço da microcefalia ligada ao vírus da zika uma emergência internacional, lançou um plano estratégico de resposta à epidemia que prevê investimentos globais de US$ 56 milhões. Pelos critérios de distribuição dos recursos, o Brasil receberá a maior parte da verba. A prioridade é para países com presença do Aedes, da zika e de malformações congênitas, e só o Brasil preenche todos esses quesitos. Até o fechamento desta edição, não tinha sido divulgado o quanto o país irá receber.

Fonte: Portal Hospitais Brasil

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